Antoñete: A morte de um mito!
- Mais: Tauromaquia
- Região: Opinião
- Data de publicação: Segunda, 14 Novembro 2011 16:07
- Escrito por Mais Região

Faleceu António Chenel «Antoñete»! A noticia correu todo o mundo taurino e comoveu todos os que de perto privaram, ou pelo menos assistiram a actuações deste personagem, que foi figura nas arenas, muito embora o seu significado para a história do toureio, se visse constantemente ofuscado pela sua vida boémia.
Falar de Antoñete, é quase como compará-lo com Miguel Mateo «Miguelin», outro grande toureiro, a quem as sombras de uma vida de noctívago, misturadas com a débil fragilidade do seu intelecto, não deixaram alcançar a plenitude total das suas capacidades de artista das arenas, relegando-o para um plano de importância é certo, mas uma importância pouco notória para a sua maneira de entender o toureio. Aliás, Miguelin podia-se gabar, de no seu tempo, ter sido o único competidor de Manuel Benitez «El Cordobés», em que o de Palma del Rio, apercebendo-se dos efeitos que o de Algeciras lhe podia causar no seu passo pelo toureio, depressa o vetou.
Mas de Antoñete, poderemos dizer que o seu verdadeiro nome é António Chenel y Albadalejo e que nasceu no dia de S. João do ano de 1932 (apesar de algumas biografias afirmarem ter sido em 1934), em Madrid, numa das várias dependências habitacionais que existem na praça de toiros Monumental de Las Ventas daquela capital, onde residiam seus pais e onde um seu tio, irmão de sua mãe ao que creio, era ali maioral. O seu apôdo «Antoñete», resulta da sua convivência com os demais que por ali naqueles tempos circundavam e com os chavales da sua idade, com quem brincava, por certo "jugando al toro."
A sua afición e perante o descrito, não podia deixar margens para dúvidas face ao que seria o seu futuro: iria tentar a sua sorte como toureiro! E vendo passar por aquela que seria a arena da sua maior glória, aquela para a qual abriu os olhos, de todas as grandes figuras da Idade de Prata do toureio, espanholas e mexicanas, o jovem Antoñete faz a sua estreia em público, trajando de luces pela vez primeira, num espectáculo bufo realizado no ruedo venteño no ano de 1949, actuando na parte séria do mesmo, que aliás e para que conste, era parte integrante da troupe cómica «Los Charros Mexicanos».
Durante dois anos andou como bezerrista e em 18 de Fevereiro de 1951, o empresário Pedro Balañá oferece-lhe a data para, na Monumental de Barcelona se estrear com os do castoreño, triunfando e logrando novo contrato para mais duas tardes naquele albero em Setembro seguinte. Segue triunfando por todas as grandes praças de Espanha e alguns ruedos franceses, sem a mágoa que viria a marcar a sua trajectória após a alternativa, as colhidas. Em Madrid apresenta-se em 5 de Junho de 1952, ao lado de Manuel Perea «El Boni» e Carriles, na lide de uma novilhada de Nicásio López Navalón, triunfando e repetindo mais duas tardes.
O doutoramento recebe-o em Castellón de la Plana, na primeira corrida da Feira de La Magdalena daquela cidade, na tarde de 8 de Março de 1953, vestido de salmão e prata e lidando o toiro «Carvajal», nº 54, de Curro Chica, que o seu padrinho Júlio Aparício lhe concedeu, na presença de Pedrês. Confirma em Madrid a 13 de Maio seguinte, com o «Rabón», de Alípio Pérez Tabernero, cedido por Rafael Ortega, mas desta feita com Aparício a testemunhar.
Dois dias depois, no dia do Santo Lavrador e na mesma praça, Madrid, Antoñete alcança o seu primeiro êxito retumbante, cortando três orelhas a toiros de Bohórquez, alternando com o padrinho da sua confirmação, o mexicano El Ranchero e o caballista Àngel Peralta.
Em Novembro desse mesmo ano, debuta na Monumental México, para naquele dia 22, ver ali ser-lhe referendado o doutoramento pelo grande Capeto (Manuel Capetillo, para que conste), lidando toiros de San Mateo e tendo como terceiro espada no cartel Juan Silveti filho.
Prossegue a sua carreira e em 15 de Maio de 1966, outra vez em Madrid e em plena isidrada, assinala aquele que foi o maior êxito da sua vida, quando por diante lhe sai o «Atrevido», um precioso toiro com o ferro e divisa de Osborne, marcado com o nº 53, com 486 kgs e de pelagem ensabanado alunarado, capirote em cárdeno e botinero em negro, que permitiu ao toureiro da madeixa de cabelo branca (el torero del mechón blanco), realizar uma das maiores faenas da sua vida e uma das maiores realizadas naquela praça desde a sua inauguração e que ficaria para os anais da história como «a faena ao toiro branco de Osborne». Antoñete vestiu de salmão e ouro e naquela tarde alternou com Fermín Murillo e Victoriano Valência. A cabeça do «Atrevido» seguiu para a Colômbia, na bagagem da comitiva do Presidente daquela República, Lleras Restrepo, a quem o toureiro havia brindado a lide do "osborne".
Ao Campo Pequeno vem em 30 de Abril de 1967, aqui actuando depois em mais duas ocasiões, para voltar no ano seguinte a pisar arenas nacionais, concretamente em Santarém e só regressar depois em 1970, para actuar na capital em duas datas e nas Caldas da Rainha pelo S. João.
Seguem-se outros êxitos na carreira do toureiro de Madrid. Mas ao mesmo tempo, vão surgindo as cornadas e as lesões, que não só desmoralizam Antoñete, como o fazem cair na penumbra do alcoolismo e do jogo, vícios que marcariam toda a sua vida pessoal e taurina, provocando altos e baixos constantes, que lhe custaram casamentos, dinheiro, amizades e a sua própria dignidade em momentos altos da sua vida. À custa de tais perturbações, faz constantes reaparições e igual número de retiradas, motivadas pela falta de dinheiro que os vícios lhe absorvem, nomeadamente o jogo.
A sua última actuação em público foi há 11 anos em Burgos, durante um festival, em que após lidar um hastado, sofre um grave enfarte do miocárdio, que dita o seu afastamento definitivo do toureio, ficando a sua presença a marcar apenas as transmissões televisivas de Canal +, em que ao lado do comentarista Manuel Moles e do retirado matador Emílio Muñoz, adquiriu um outro lugar de actuação nos cartéis das várias feiras que aquele canal televisivo vinha a fazer de há uns anos a esta parte.
António Chenel «Antoñete» foi vitima de grave bronco - pneumonia. Deixou esta vida terrena no passado dia 22 de Outubro. Para trás, fica o mito por si gerado e a sombra do "Atrevido" que lhe deu fama e prestigio, numa altura em que a sua estrela estava prestes a apagar-se.


