Entrevista: Domingos Lobo
"Que o públicom apesar de mais esta crise, não deixe de vir ao teatro"

O Mais Região esteve à conversa com Domingos Lobo, escritor e fundador do Grupo de Teatro de Benavente, “SobreTábuas”. Este, com 65 anos, e Eugénia Edviges foram os fundadores do grupo, que se iniciou no ano de 1995, com a peça denominada “O Duelo”, de Bernardo Santareno, com estreia no Centro Cultural de Benavente. Com essa peça o grupo participou em diversos festivais de teatro, nomeadamente em “Cem Soldos” e “Alverca”, onde contracenaram outros actores, como Leonor Edviges, Paulo Constantino, Gabriela Serrão e Vânia Duarte.
Foi positiva a recepção de Domingos Lobo à nossa entrevista. Desvendou-nos algumas curiosidades e aconselhou os leitores a irem ao teatro. “Só através dele nos podemos tornar melhores: o teatro humaniza-nos”.
Mais Região - O Grupo tem sede própria e local para ensaios?
Domingos Lobo - O grupo tem ensaiado sempre em espaços cedidos pela Câmara Municipal de Benavente. Neste momento ensaiamos no Cine-Teatro de Benavente, mas mantemos um espaço para cenários e adereços de cena no Centro Cultural de Benavente.
MR – Como surgiu a ideia de criar este grupo de teatro?
D.L. -Pela necessidade, sentida por diversas pessoas de Benavente ligadas à cultura (alguns já haviam participado em outros grupos que entretanto desapareceram), de se revitalizar o teatro na sede do concelho. Também a acção cultural da Câmara Municipal de Benavente entendeu como necessidade básica da acção cultural a criação de um grupo de teatro, agregador das diversas actividades na área das chamadas “artes de palco”.
MR - Hoje em dia, quais são as maiores dificuldades que os grupos de teatro enfrentam? Como se resolve essa situação?
D.L. - Nos países mais desenvolvidos e ricos da Europa e dos US existe, como disciplina básica, o ensino do teatro. Entre nós, essa prática, várias vezes tentada após o golpe militar do 25 de Abril, ainda não se estabeleceu como norma. É sabido que ninguém ama o que desconhece e o teatro tem surgido aos mais jovens apenas pela via das novelas televisivas, através de uma obra alienante e medíocre como “Os Morangos com Açúcar”. Só no ensino secundário, e por iniciativa de alguns professores das áreas de humanidades, o teatro lhes surge como arte e hipótese de reflexão sobre o homem e o seu caminho através dos tempos. Os menos jovens tiveram, no teatro, um meio privilegiado de comunicação e continuam a frequentá-lo. Assim, é preciso que este estado de coisas se inverta, mas, para tanto, é necessário tempo e paciência. É necessário resistir... Mais grave do que o teatro, o qual, apesar de tudo, tem público, são os níveis trágicos de iliteracia que persistem na sociedade portuguesa. Não podemos ignorar que há 30 anos ainda tínhamos cerca de 25 por cento de analfabetos”.
MR – Como é que o Grupo de Teatro SobreTábuas consegue sobreviver? Recebem alguns apoios do estado?
D.L. – O Estado ignora as centenas de grupos de teatro de amadores (dos que amam) que, por este país fora, mantêm uma actividade cultural incontornável e relevante. Remete-os para a esfera da administração local, deixando-os a braços com apoios quase residuais. Não ignoramos que as câmaras, as mais atentas às coisas da cultura, fazem um esforço significativo para apoiar os grupos existentes, porém, esse apoio é nitidamente insuficiente para a exigência que hoje um espectáculo de teatro configura. O “SobreTábuas” é apoiado pela Câmara de Benavente e pela Junta e vai conseguindo, com algum esforço e criatividade, montar os seus espectáculos. Outros grupos existem que nem esse apoio auferem, e outros que recebem num mês aquilo que recebemos num ano. A realidade do país é muito diversa e, nas questões culturais, francamente desigual.
MR – Qual a razão da pouca afluência de público nos espectáculos?
D.L. – Referindo, como exemplo, o último espectáculo do “SobreTábuas”, sobre dois textos de Anton Tchekhov, não entendemos haver um divórcio do público em relação ao nosso trabalho. Em três dias tivemos cerca de 260 pessoas, o que em termos nacionais nos parece uma boa percentagem. Não podemos esquecer que a maioria dos teatros existentes em Portugal não têm mais de 100 lugares. O Cine-Teatro de Benavente tem uma configuração de grande sala, já raras, e só com espectáculos de grande vocação popular, como a revista, será possível esgotar uma sala com essas características. Os teatros em Lisboa, Cornucópia, Barraca, Lurdes Norberto, A Comuna, têm espaços entre 80 e 100 lugares, o que se nos afigura, nos tempos que correm, a dimensão excelente para um espectáculo de teatro.
MR – Com a crise instalada, teme que o grupo possa vir a encerrar as portas?
D.L. – Pensamos que não. Sempre vivemos em crise, e esta, sendo sistémica, não é diferente das que, ao longo dos séculos, este pobre país já viveu. O teatro é a arte da transfiguração e, com criatividade e imaginação, somos capazes de superar estes dias difíceis. Pior estarão os grupos profissionais que têm ordenados a pagar, rendas, etc. E o estado central – este estado que reduziu a Cultura a uma mera secretaria – não me parece muito interessado em fomentar a cultura do nosso povo e a empenhar-se nesse projecto essencial ao nosso desenvolvimento. Um povo sem cultura, sem saberes, definha; sem massa crítica regressamos à nossa condição de marionetas – e parece-me que é isso que este governo quer. Grotowski, com o seu “teatro pobre” deu-nos uma lição de resistência: resistiremos.
MR - Como decide que tipo de encenação fazer e como escolhe as peças a encenar?
D.L.- Começamos por ter em conta os elementos de que dispomos no grupo, e escolhemos os textos em função dessa condicionante. Tentamos, claro, que os textos nos agradem e que possam ser entendíveis pelo público ao qual se destinam. O teatro é, antes de tudo, uma pedagogia. Privilegiamos quase sempre os autores portugueses. Em doze espectáculos montados, só por três vezes recorremos a dramaturgos estrangeiros: Agatha Christie, Bertolt Brecht e, agora, Anton Tchekhov.
MR – Qual a peça que mais gostou de fazer até hoje? E que papel lhe deu mais prazer interpretar?
D.L. – A nossa peça mais rigorosa e a que nos deu mais gozo fazer foi “A Ratoeira”, de “Agatha Christie”. Alguns elementos do grupo foram a Londres ver o espectáculo (está em cena há quase 60 anos) e afirmaram ser a nossa encenação tão digna, mesmo com os condicionalismos orçamentais, como a de Londres. Até público que viu as duas encenações, nos afirmou ter gostado mais da nossa. Foi, penso, uma digna montagem de um brilhante texto de teatro.
MR – Qual o seu maior sonho enquanto representante do SobreTábuas?
D.L. – Gostava de encenar, 45 anos depois, a primeira peça que encenei: “Antígona”, de “Jean Anouilh”. Até por que vivemos, hoje (quando a encenei, em pleno fascismo, o texto estava proibido e tivemos que fazer o espectáculo contornando a censura e em segredo, só para alguns amigos), uma situação de pré-ruptura democrática, um quase regresso a posições autocráticas que a peça de “Anouilh” – escrita contra o nazismo – brilhantemente configura e denuncia.
MR – Durante os ensaios certamente muitas peripécias e aventuras ocorrem. Descreva-nos aquela que já mais esquecerá.
D.L. – Uma situação francamente caricata: estava a marcar uma cena de “A Ratoeira” e, de repente, o palco abriu-se e eu fui despejado, literalmente, no fosso de orquestra. A cena de “mágica imprevista” valeu-me algumas escoriações e alguns momentos de franca risota entre todos os participantes.
MR – Acha que o público jovem não está muito virado para a representação?
D.L. – Os jovens, que têm frequentado os nossos cursos de Verão, vêm para o teatro sem uma noção clara do que é fazer teatro. E têm um choque quando começamos a mostrar-lhes o lado menos exuberante, menos lúdico, desta arte difícil e exigente. A disciplina, como sabemos, não atrai os mais novos. Mas há jovens com muito talento e vão aparecendo. No próximo espectáculo do “SobreTábuas”, uma revista, vamos ter três novos actores muito jovens.
MR – Quer deixar aqui tipo de apelo?
D.L. – Que o público, apesar de mais esta crise, não deixe de vir ao teatro. O teatro é uma arte milenar, faz parte do imaginário mais recôndito do homem e, só através dele, nos podemos tornar melhores: o teatro humaniza-nos. Neste tempo de capitalismo rapace precisamos do teatro para regressarmos à nossa essência.


