Dicionário dos nossos dias

Três, dois, um: Trrim! Começa o combate. Hoje, aparência e existência opõem-se frente a frente numa empolgada luta que promete encher páginas, libertar sentimentos, provocar críticas e largar consequências.
Maria chega ao espelho e sabe que quando descer a calçada arrepender-se-á, mas, em prol da aceitação do grupo do qual sonha fazer parte, abdica daqueles ténis, tão confortáveis, para os vertiginosos destaques da última edição da "Vogue". E ela não é a única. "Haverá algo melhor do que se sentir aceite pela ´sociedade´?" – questiona Maria. Mas agora indago eu: "Não há algo melhor que nos sentirmos confortáveis na nossa pele, independentemente das críticas de outrem?" Não, não há.
O índice de valores que cada um determina enfrenta duras viagens. O facto de ter "x" encontra-se, cada vez mais, num posto mais alto do que ser dotado de "y". O indivíduo passa, dia a dia, a ser cada vez mais programado, idealizado e até mesmo, sim, comprado! Há algum tempo, vozes de mulheres de parlamentos importantes europeus ecoaram juntas na tentativa de despersuadir ao uso de "Photoshop". Tudo por causa da imagem da modelo da "Ralph Lauren" que correu mundo. Um pequeno exemplo entre tantos outros. Cinturas ínfimas? Irreal, claro. Os apologistas da aparência alegam que questionar "Photoshop" seria questionar maquilhagem, pintura de cabelo, dietas. Meus senhores: Prudência! Esquecem-se dos impactos que a aparência criteriosamente construída provoca nas pessoas? Todos estes jogos, aparentemente ingénuos, criam nos outros o senso de libertação do próprio eu, do ser pensante, da autenticidade.
A opinião é unânime. A maioria defende a diferença, mas, antieticamente, procura a igualdade "camufladamente", é mecânico. Se fosse interessante sermos iguais, então por que a genética não nos teria feito assim? O "crossing-over", as "meioses" e mutações ditaram que fossemos distintos e que, deste modo, nos comportemos: distintos, elementares, especiais... Exponenciados a existência ampla.
Até quando durará o combate? Não se avista o término.


